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Sem tempo limite para brilhar nos palcos

Cantoras do Coletivo 50+ usam da coletividade para superarem os preconceitos da indústria musical

Será que estou velha demais pra isso? Se toda mulher que carrega esse questionamento olhar para o Coletivo 50+, encontrará cinco outras mulheres que decidiram que não existe tempo certo nem tempo errado, não existe tempo limite para artistas femininas embarcarem em um sonho ou vontade. As cantoras usam estrategicamente a coletividade para enfrentar o machismo e o etarismo. Para quem ainda tem dúvidas se existe um tempo certo para viver suas vontade, a resposta vem em forma de 6 músicas lançadas em 2024 em um EP do grupo formado por Patrícia Mellodi, Ana Costa, Andréa Dutra, Crikka Amorim e Germana Guilherme.

Todas elas já sentiram a alegria do envolvimento com a música mesmo antes da formação do Coletivo. Andréa Dutra começou a cantar na escola, nas atividades culturais e festivais. Estava sempre perto do grupo que carregava um violão no braço e a empolgação para cantar desde a noite até de manhã. O intervalo de bares com música ao vivo foi como uma porta de entrada para as oportunidades. No ambiente regado a conversas, bebidas e trocas foi onde um dia resolveu perguntar ao cantor da noite: “Posso cantar no seu intervalo?”. A partir da entonação de um sim, pegou seu violão, com o conhecimento de poucas notas e soltou a voz. Quando percebeu, já estava realizando outros shows. Estudou música, costurou, foi corretora de imóveis, se formou em jornalismo e entrou no Jornal do Brasil. Mas o lugar da música continuou intacto em sua mente.

Imagem: Canal Música, Música, Música - Paulo Bambu Cunha

Imagem: Canal Germana Guilhermme

O violão também esteve presente no início da história de Germana. Seu pai tocava e cantava. A cearense recebia apoio de sua família para ser psicóloga, mas sabia, dentro de si, que queria ser artista. As aulas de dança em uma academia do lado do prédio em que morava chamou a sua atenção. Fez Jazz e se apaixonou pela dança, mas seu pai não tinha mais condição financeira de pagar as aulas. A partir disso, Germana começou a trabalhar na secretaria do local para continuar aprendendo.

Depois, conseguiu a oportunidade de dar aulas de dança para as crianças pequenas e, por conta disso, ganhou passe livre para frequentar todas as classes que quisesse. Anos depois, subiu em um palco de um festival como backing vocal, e teve certeza que ali, entre o sorriso e o microfone, encontrou sua vocação. Participou da banda de rock Blitz e foi nessa época que conheceu Patrícia Mellodi.

Imagem: Canal Patricia Mellodi

Patrícia veio do Piauí para o Rio de Janeiro e começou a tentar a carreira de artista. O despertar do que a música significava para ela veio em um embrulho de presente quando era criança: um radinho amarelo que, ao soar das primeiras notas da música “Passarinho" de Betty Carvalho, fazia com que a cantora chorasse copiosamente. A inspiração por mulheres na música só cresceu, e quando seus olhos encontraram Joyce Moreno cantando no festival MPB Anos 80, decidiu seu caminho. "Eu tive uma epifania, olhei para ela com aquele violão no colo e falei assim: eu vou ser igual a essa mulher", conta Patrícia. Quando tinha 13 anos, ganhou um violão da sua tia, a ideia era servir como algo terapêutico após a separação dos pais. Mas o violão, em cada aula de música e apresentação, se tornou sua vida. É produtora, pedagoga, e acredita que pode se tornar tudo mais que quiser ser.

O mesmo impacto que Patrícia sentiu quando olhou para Joyce Moreno foi o que Ana Costa percebeu ao ver Nilce Carvalho tocando bandolim, instrumento que ganhou da mãe depois de cismar que queria tocá-lo. Começou na música na Baixada Fluminense, fazendo parte de projetos e introduzindo a si mesma aos primeiros contatos com pessoas da área. Quando entendeu que era a trajetória de melodias que queria

seguir, abandonou o trabalho em

Imagem: Canal Ana Costa

um escritório para se dedicar ao sonho. Em um dos dias que cantou no bar "Amada Cerveja", o que fazia toda terça feira, conheceu dois filhos do Martinho da Vila, que a viram tocando violão e pensaram que era perfeita para um grupo que o pai deles estava montando, de samba com jovens músicos e cantores. A artista diz que esse dia foi como uma ruptura. Ana é sambista, mas não foi nascida no meio de samba, foi uma família de samba que a adotou.

Crikka Amorim também sempre teve contato com a área musical. Sua irmã tocava em uma banda criada junto com um primo. A banda, para Crikka, era terrível, mas, ao mesmo tempo, achava que o fato de terem criado uma banda era o máximo. Aprendeu a tocar violão com a irmã e também teve outros professores. Ao som dos ensaios da banda, ficava lendo revistas que falavam sobre instrumentos e investia o seu tempo tocando, por horas. Independentemente do que estivesse fazendo, a cantora revela que nunca conseguiu fazer nada além da música, sua paixão. Formada em arranjo musical e MPB na UNIRIO, fez direção musical de artistas e montou um estúdio.

Imagem: Canal Crikka Amorim

Foi exatamente nesse lugar que nasceu o Coletivo 50+. Crikka percebeu a mudança na Indústria musical, e o mercado que já não recepcionava bem vozes de mulheres que tem mais de 50 anos, se tornou ainda pior a partir do surgimento das plataformas digitais. Nesse cenário, entendeu que apenas uma pessoa sozinha falando de questões femininas não faria efeito.

O questionamento de uma idade certa para viver a vida pode aparecer para qualquer um com o passar do tempo. Mas, quando uma mulher se pergunta isso, lida com preconceitos que vão além do etarismo. Na sociedade ocidental é comum que pessoas encarem idosos como pessoas incapazes. Na realidade, esse é um mito geracional que ainda é muito propagado. Como consequência, é perceptível que a idade se torna um grande obstáculo para quem pretende se inserir no mercado de trabalho, onde sua imagem é desmerecida constantemente. Na indústria da música, em que já é difícil para uma mulher crescer sua carreira no auge da juventude, observa-se uma dificuldade ainda maior para aquelas que perseguem esse sonho aos 40 ou 50 anos de idade.

 

Todas as mulheres do Coletivo percebiam a competitividade que existe na área da música como um todo. Mas agora, ao compartilharem um palco e uma luta em comum, não sobra espaço para competição. A união de histórias parecidas fez com que enxergassem o apoio que mulheres deveriam dar umas às outras, mesmo com diferentes modos de pensar, a vontade de tornar a representação feminina na música como algo a se admirar é mais forte.

Juntas, a celebração é sempre igual. A intenção do Coletivo não é apenas romper o preconceito já existente na indústria, mas abrir caminhos para que futuras mulheres que quiserem ser artistas, independente da idade, possam brilhar em cima dos palcos, em frente às câmeras e dentro dos estúdios. Todas as músicas do EP são inéditas, carregando composições das cinco, que relatam que ao passar de cada dia se sentem mais enriquecidas com o que aprendem umas com as outras. "Com a outra eu faço mais música. Com cada uma eu descobri um viés de relacionamento e que me mudou pra caramba. Eu não quero ser aquela boba que vai achar que sabe tudo. Então, quando a gente junta um monte de cabeçuda e cascuda dessa, é óbvio que eu tenho a aprender." explica Patrícia Mellodi.

 

Na contramão do conhecimento que tem adquirido umas com as outras, um dos problemas que encontram atualmente é a cultura cada vez mais nichos nos conteúdos. A forma como as pessoas consomem música mudou, e os algoritmos trabalham para entregar cada vez mais o que já está presente nas playlists criadas. Esse fenômeno faz parte das barreiras do mercado para que um novo público encontre grupos como o Coletivo 50+. E em um momento em que o número de seguidores faz parte da curadoria do que faz sucesso, é preciso quebrar estereótipos.

A diversidade que existe tanto no grupo, quanto nas músicas é parte de um movimento de vida de ressignificar a forma como mulheres encaram a idade. Entregar a artistas um lugar de pertencimento.

Através de histórias, posturas e recortes mostram que o tempo de agir é sempre agora, nunca no passado. Mesmo que a parte mercadológica faça força para que esse tipo de iniciativa não permaneça, Patrícia, Ana, Andréa, Crikka e Germana carregam a beleza de uma narrativa madura, da sabedoria de experiências singelas e da criação de novos mundos na música.

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