
Mais que um rebolado: a potência do funk para cantoras
Apesar de muitos obstáculos, as mulheres do funk seguem na luta por representatividade no meio
Quem tem ouvidos atentos em bares, baladas e bailes, logo percebe como o funk se tornou uma potência que se encontra por todos os cantos do Brasil. Ao entrar nessas festas, a batida nem sempre é igual. Atualmente, o funk se divide em subgêneros, como o funk proibidão, ostentação,consciente e mandelão. Apesar da grande legião de “depreciadores”, que vão contra as letras das músicas e da dança que as acompanham, o funk representa um movimento cultural com uma ascensão que já acontece há algumas décadas. Em contrapartida desse crescimento do gênero, que apresenta canções que constantemente mencionam uma “novinha”, “mina” ou “dona”, as cantoras de funk ainda possuem pouco espaço para evolução nesse mercado.

Esse é o caso da Natthalia Campos, que é cantora e compositora de Funk. Ao olhar para o passado e prestar atenção em que momento da vida começou a ter contato com esse universo, se dá conta de que mesmo antes de nascer, já ouvia o som. Seu pai era MC, mas apesar de ter essa vivência desde a infância, só entrou no mercado profissionalmente há pouco tempo. Para a cantora, ser mulher no funk é uma construção de legado, por conta da falta de representatividade de mulheres que conquistam o mainstream
Imagem: canal #estudeofunk
No funk, a representação feminina é de apenas 17%, segundo dados da ONErpm, uma plataforma de distribuição digital de música. “A mulherada é maioria na população e aí a gente se vê, no mercado da música, como a minoria. É uma conta que não fecha.”, afirma a cantora que é conhecida como Natitude. Como bem diz o nome, Nat tem atitude de sobra para falar sobre os desafios que enfrenta por estar nessa indústria.

Apesar de estar num cenário que não prioriza mulheres, Natitude ainda sente que tem a liberdade para ser aquilo que quiser. A cantora acredita que o funk tem uma missão: quebrar paradigmas. O fato de mulheres funkeiras conquistarem espaços que em algum momento foram negados já é um avanço para um gênero que é constantemente deslegitimado, especialmente quando cantado por mulheres. “É revolucionário quando a mulher tem oportunidade de se posicionar em algum âmbito, sabe?[...] Eu acho que no funk, ele ainda consegue abraçar ainda mais. Por mais que ainda seja repleto de figuras masculinas, a gente consegue se expressar: a maneira que a gente fala da nossa sexualidade, falar do nosso jeito de viver a vida, sem ter essas questões de “Ai tem que ficar naquela caixinha de dona do lar, de mãe”…”, explica Natitude.
Tamires Coutinho é pesquisadora e autora do livro “Cai de boca no meu b*c3t@0: O funk como potência do empoderamento feminino”. Os amigos e familiares que chegavam em suas festas de aniversário, quando era mais nova, ouviram as batidas do gênero para celebrar a vida de Tamires. Quando criança, gravava as músicas preferidas em fita cassete para curtir o som. Essa relação tão próxima se tornou mais ampla na universidade, quando começou a ter contato com questões culturais e sociais da indústria. Sua mente se abriu em um workshop da faculdade de três dias sobre o funk ao observar os prazeres, as dores e as dificuldades de quem canta como quem lidera um movimento político.
Nesse período, começou a enxergar o funk como objeto de estudo e percebeu a questão feminina dentro dessa indústria. A forma como as mulheres levantavam as mãos, e dançavam com empolgação ao som de “Cai de boca” da cantora MC Rebeca impressionou Tamires, para ela, a junção de vozes que cantavam e se moviam ao som de uma mesma música parecia um hino, um mesmo sentimento, uma luta única.


Essa do vídeo é a Ligiane Neves, e no colo dela, sua filha de 10 meses, Maria Morena. Em cima dos palcos, a cantora de funk atende pelo nome MC Lady Ly que já está nesse cenário há cerca de 9 anos. No entanto, as influências do funk aparecem na vida de Lady Ly desde pequena, com seu tio Genilson que é DJ de Charme. Na época da infância, a MC compunha músicas para participar de campeonatos.
Para Ligiane, se dedicar ao funk significou ter que superar muitos desafios para viver esse sonho. Lady Ly hoje é manicure, cantora e compositora, mas conta que na época em que resolveu começar a carreira profissional na música, teve que desistir de um emprego com carteira assinada. A dificuldade estava em conseguir conciliar o tempo das gravações com o trabalho.
“Eu resolvi seguir minha carreira, com a ajuda de alguns amigos também do meio da música, e fui conseguindo conquistar o meu espaço. Conquistar o meu empoderamento feminino, porque onde a gente mora, em uma comunidade, você fala: “aí, você trabalha de quê?” Eu sou manicure e cantora. “Mas você canta o quê?” Eu canto funk. “Ah, mas funk não é música” É. Funk tem letra, tem melodia, tem sentimento, como todos os outros ritmos, entendeu?”

Fato é que o funk, apesar de popular, nunca foi bem recebido por alguns brasileiros. Porém, esse problema ultrapassa as questões patriarcais de oprimir as mulheres que falam sobre sexualidade, envolvendo muitos outros julgamentos. O funk é uma manifestação cultural que representa a periferia, em que são cantadas as vivências e a realidade da comunidade. Por conta disso, nem sempre a descredibilização das músicas nesse mercado é feita apenas por questão de gosto “É preconceito que envolve várias coisas, racismo, conservadorismo e classismo.”, explica Tamiris Coutinho.
Entretanto os preconceitos não parecem parar as mulheres que nasceram para o funk. A cantora Anitta estreou a sua turnê “The Baile Funk Experience” em Los Angeles, que foi bem recebida pela crítica americana. A intenção de Anitta com esse projeto era levar o funk pro mundo, mostrando a potência cultural de suas raízes. “Acho fantástico o que a Anitta vem fazendo no cenário, sabe? Ela é minha referência. O “babado” dela é sinistro. Ela é uma potência para mim.”, diz Thallysiane Aleixo, atriz, compositora e cantora de funk, que no meio musical é conhecida como Taty Aleixo.
Para Taty, o funk foi além das letras e batidas,
servindo como uma importante ferramenta de autoconhecimento. Foi através de estudos sobre o estilo, de composições e do canto que ela passou a enxergar e interpretar melhor sua realidade.

Ter esse conhecimento sobre si e sobre o meio que está inserido não é algo simples, ainda mais se você se encontra em um meio musical de poucas oportunidades para as mulheres. Apesar dos obstáculos, as três funkeiras acabaram se encontrando em um projeto que apareceu na tentativa de ser uma chance para quem quer evoluir no meio: o Estude o Funk.

Esse é um projeto que tem como objetivo fomentar a cultura do funk. No programa os selecionados produzem suas músicas e aprendem na prática o que é esse mercado. “O Estude o Funk tem aulas de mercado e carreira com informações que eles precisam saber pra se tornar um artista independente. Como registrar sua obra, como funciona os direitos autorais, como lançar sua música...
Todas essas informações são essenciais para que esses artistas consigam se inserir na indústria“, comenta Vanessa, diretora do projeto.
Além do suporte, para que pessoas que não tem condições de produzir, consigam fazer sua música, o programa também enfatiza para os participantes a importância do constante estudo da indústria e história do funk para conseguirem evoluir suas carreiras

Taty aplica todo o conhecimento dos estudos na execução de seu trabalho, e para ela, alguém que revoluciona na forma como expõe o funk para o mundo é a cantora Anitta. O que mais importa para Taty Aleixo no momento é saber onde ela consegue chegar com sua música, onde afirma que o subgênero “proibidão” - que é mal visto por uma parcela da sociedade, por conter letras explícitas - dificulta o caminho para a popularidade. “Tem funk de mulheres falando “Olha eu dou para isso, dou para aquilo”, também tem o funk que fala sobre a rival, a amante… Eu já fiz o funk proibidão, mas agora eu penso: eu quero que meu funk chegue na zona sul, que toque em um churrasquinho em família. E o funk proibidão não vai chegar lá.”
Quando ainda cantava o “proibidão”, era a mãe de Taty, Sirleia Aleixo, quem compunha as músicas. A mãe a introduziu para vida artística, quando fazia suas performances na quadra “Não Tem Mosquito” na comunidade do Jacarezinho. Sirleia é a parceira dos versos da filha e é um pouco mais aberta para falar sobre certos assuntos. Thallysiane, por outro lado, diz que tem vergonha de abordar, mas quando se trata de Taty Aleixo é outro assunto…

Taty de certa forma nunca deixou de falar sobre o prazer feminino e amor. Hoje em dia, a cantora busca ser mais sutil nessa abordagem, para não cair na rede de quem irá julgar ela por ser uma mulher que fala explicitamente sobre prazer.

A compositora conta que desde que começou a estudar esse mercado, passou a compreender que muitas das mulheres se “submetem” a algumas situações dentro do funk pela falta de oportunidade e falta de referências de mulheres no meio. “Algumas mulheres quando caem naquele mundo são acolhidas na maioria das vezes por homens. Então, a visão dela e a referência delas é só homem. [...] Os homens têm uma visão muito sexualizada. E aí aquelas mulheres acabam se submetendo a falar sobre o “lanchinho”, falar do amante, de rivalidade, isso porque só tem aquela oportunidade. Porque se ela não cantar dessa forma, sexualizada, ela não vai estar lá no Spotify, ela não vai estar lá bombando junto com ele.”, conclui Taty Aleixo.
Apesar desse nicho ter chance de não chegar nos domingos em família, Tamiris Coutinho conta que as expressões usadas nos funks "proibidões" são uma ferramenta, onde a mulher é capaz de expressar sua sexualidade.

A pesquisadora afirma que a objetificação e o empoderamento são duas questões que sempre andarão de mãos dadas quando se fala de funk “putaria”. Para explicar esse recorte do que é a visão da mulher dentro dessa cena, Tamiris voltou aos anos 90, onde havia um crescente movimento de violência no Rio de Janeiro que estava sendo relacionado ao funk. Daí começa a “criminalização” do gênero. Na tentativa de reverter a situação, uma das primeiras movimentações foi permitir uma entrada maior de mulheres no meio - principalmente como dançarinas para aqueles homens que teoricamente estavam ali brigando. Dentro dessa ótica a mulher era usada como mero entretenimento, atribuindo para sua objetificação.
Entretanto, ao voltar para os dias atuais, a pesquisadora conta que é importante olhar essas cantoras do funk a partir de outra perspectiva. “ A gente tem que pensar que a mulher, ela não tá nesse cenário, como se não fosse um personagem principal, como se ela estivesse ali para apenas preencher uma lacuna. A gente tem que ter mulheres aqui para tentar movimentar as coisas. É colocar a mulher como dona da sua história e lembrar que ela tem um papel importante para o movimento e para a estrutura do mercado do funk.“, conclui Tamiris Coutinho.