
Existe sensualidade sem objetificação?
A exposição do corpo feminino na música se entrelaça com o poder do mercado e a liberdade das mulheres
Em frente aos Arcos da Lapa, ao som de um pagotrap romântico, a cantora Lila dança com energia. Um pouco atrás dela, um homem de camisa branca observa seus movimentos. Essa cena é parte do novo clipe da cantora lançado em março deste ano. Existe quem reprove mulheres que não têm vergonha de mexer o corpo no momento da criação de produtos audiovisuais. Mas, em meio às batidas da música, Lila carrega uma mensagem sobre a liberdade feminina: “Eu vou fazer. Porque eu posso. Por que? Porque o corpo é meu, e é assim.”
A carreira de Lila começou com um disco de músicas infantis, no qual foi solista aos 7 anos. Depois, passou por dois grupos, “Mulheres da Holanda” e “Quarteto Primo”. Agora, Lila segue com seu trabalho autoral. Em 2021, a cantora lançou um álbum que tem como tema a maternidade. Algumas mulheres definem esse sentimento como o maior amor do mundo, mas que, no meio das pressões sociais, pode apagar o olhar sobre si. Escrever o álbum, para Lila, se tornou uma forma de se reencontrar com seu corpo e sua sexualidade.

Foi com uma junção de beats, samba e trap que a cantora o compôs. Algumas das letras foram feitas em uma hora, fato que até assustou os amigos próximos, que se perguntavam de onde as ideias estavam vindo. Outras, passaram por um processo de composição de 6 meses, e que mesmo assim, não pareciam tão bem resolvidas aos olhos dela.
Lila conta que, apesar de não existir um escopo fechado de temas a serem cantados por mulheres, existe um padrão do que se deveria cantar: "O mercado tem alguns arquétipos da mulher na música, que se você se encaixa dentro deles, ele te compreende melhor, te vende melhor, te recebe mais facilmente. A maternidade é um tabu." Ainda que seja considerado um assunto feminino, a cantora espera que esse diálogo, que a música reproduz quando chega aos ouvidos, seja sentido por todos, não só por mulheres.
No dia a dia de artistas femininas, a falta de liberdade também está presente na preparação para apresentações quando a banda e produção são formados por homens. Cenários como a desqualificação e o assédio estão presentes nesse momento. Foi pensando nisso que a artista, em outro projeto, feito no Sesc do Rio de Janeiro, montou uma equipe de maioria feminina, desde os instrumentistas da banda, até a parte técnica. Só o motorista da van era homem. "Todo mundo percebia o quanto era diferente, a falta de opressão, a liberdade de poder errar no ensaio, sem medo de ser colocada em um lugar ruim" comenta Lila.

Depois dos ensaios, o próximo passo é se apresentar. Seja em um show, ou em uma gravação de um clipe, a forma como o corpo feminino vai ser representado sob as luzes e os holofotes é uma questão. O tipo de roupa e a forma da dança entram em um espaço de escolha entre aparecer ou se esconder, e podem ser comentados pela imprensa e pelo público.
Nesse jogo de embates, artistas são criticadas por expor o corpo em produtos musicais. Em 2023, Anitta falou sobre receber ataques por cenas mais sensuais em seus clipes em entrevista ao GNT. Três anos antes, no mesmo mês, Luisa Sonza se defendeu nos stories do Instagram após receber inúmeras críticas quando compartilhou prévias de um lançamento. O ciclo de desaprovação sobre esse tipo de arte é constante. Para Lila, existe uma diferença entre ser objetificada e ocupar um lugar de empoderamento através do corpo. "A solução é educar os veículos, educar as pessoas, os olhares, é dessexualizar o corpo feminino num lugar de objeto e deixar as mulheres sexualizadas serem seres sexuais. Eu acho a sexualidade um lugar de saúde."


Com composições que contam histórias ancestrais e que falam sobre amor, assim como Lila, Luciane Dom também encontrou a música muito cedo. Quando criança, sua mãe às vezes pedia para que ela parasse de cantar um pouco, já que passava seus dias diariamente correndo pela casa cantando.
A artista foi premiada no African Entertainment Awards por uma pesquisa em que explora a sonoridade e os caminhos da música africana. Cada criação de Luciane é produzida buscando fazer o caminho que percebe que a música a está guiando, de formas variadas. Em alguns momentos, a melodia vem primeiro e depois o entendimento do que essa melodia diz. Em outros, a poesia vem primeiro, já carregando por si como ela deveria ser melodiada.
O primeiro vídeo do youtube da cantora é de 2013. Luciane olha para uma partitura e solta a voz para cantar “Voi Che Sapete", de Mozart, no Instituto Benjamin Constant, na Urca. Atualmente, já se apresentou em lugares como o teatro Lincoln Center em New York. Em uma de suas últimas produções, a cantora define o álbum como “muito bonito, mas feio pra caramba”, por falar sobre sentimentos que de certa forma a vulnerabilizam. Mesmo após alcançar novos degraus na carreira, ainda percebe que as mulheres têm muito a conquistar no meio artístico.
"Não existe". Essa foi a resposta de Luciane quando questionada sobre o que lhe vem à mente quando pensa em liberdade feminina na música. Para a artista, as cantoras brasileiras precisam constantemente provar que são dignas do lugar que ocupam. Luciane explica que especificamente no pop, sente que existem moldes para serem preenchidos. "Ou você vai ser a super sexy, com corpo perfeito, ou você vai ser a super singela angelical, ou você vai ser a estranha. De certa forma, existem estereótipos que você vai ver na música o tempo todo."
Todos esses padrões que a cantora citou estão ligados aos corpos das mulheres e a como se comportam nos seus eventos, mas o problema é ainda mais amplo, porque a representação errada acontece também no tom que canta. "Minha voz é muito suave quando estou cantando. E eu identifico uma leveza, mas aí eu chego na indústria da música e a pessoa que está analisando, geralmente um homem mesmo, vai dizer “ah, essa música é muito sensual”, e às vezes nem vi sensualidade nessa letra. Isso passa por uma questão que eu acho complexa".
O estereótipo da sensualidade perpassa a trajetória de cantoras de todos os gêneros musicais, seja nas canções ou na própria imagem da musicista. Dentro desse mercado, guiado pela lógica de uma sociedade patriarcal, a sexualização do corpo feminino é extremamente comum. “Eu tendo a achar que, claro que é empoderamento você ser mulher e usar o seu corpo para fazer o que você quiser, mas existe também o que a indústria sempre pensou sobre o seu corpo. Sempre ditou sobre o seu corpo.”, afirma Luciane.

Junto desse enquadramento existe a dúvida se as cantoras que expõem o corpo estão se rendendo ao mercado, se aproveitando dele ou apenas exercendo seus direitos de autonomia. Julia Ourique, pesquisadora especializada em linguagens artísticas, cultura e educação, explica que mesmo que pareça raso abordar temáticas femininas dessa forma, pode ser o começo de um aprendizado mais amplo. "Eu penso que o feminismo de mercadoria é ruim se você continuar só nisso, mas eu acho que ele funciona como uma porta de entrada para que você perceba outras questões que permeiam mulheres", afirma Julia.
A pesquisadora explica que o feminismo de mercado é a relação entre o capitalismo e a ideologia. O capitalismo corrompe as ideias de luta para tornar isso em algo que possa ser vendido. Julia dá o exemplo de revistas que tem como tema dicas de como ser independente para conquistar um homem. Mas a chave, segundo ela, é que esses produtos podem criar uma curiosidade para que mulheres entrem nesse universo, e descubram sobre assuntos mais importantes relacionados ao empoderamento feminino.
Entretanto, a liberdade das mulheres relacionada ao corpo também enfrenta o que os homens esperam desse corpo. Em uma indústria dominada pelo masculino, a expectativa é de que cantoras, especificamente pop, tenham performances e se vistam de formas mais sensuais. Para a cantora Nina Oliveira, não é só de liberdade que estamos falando ao abordar essa questão.

Foto: divulgação
Assim como Lila, que descobriu que sua relação com o saber musical e cuidado com a canção desde o momento de criação é uma forma de empoderamento, para Luciane, isso acontece quando o que produz chega a todos os credos, todas as camadas sociais, vê essa transição de ideias como algo poderoso e verdadeiro. As duas afirmam que o caminho para mulheres na indústria é a liberdade. Tamiris Coutinho, pesquisadora e escritora, define bem a importância desse posicionamento. "Nós mulheres somos educadas desde sempre por essa lógica patriarcal de estar sempre reprimidas e não falar sobre as suas vontades, não falar sobre os seus desejos. Quando as cantoras pegam e fazem isso, é muito importante para mostrar que você também pode pegar, não necessariamente no microfone, num palco, para falar sobre isso, mas você pode.”

Reprodução: Lila.puérpera