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Em alta só as belas

Como a imprensa reforça o machismo em coberturas de artistas brasileiras

Ju Moraes é cantora, compositora, cofundadora da produtora Colaboraê e criadora do Sambaiana, um coletivo de samba feito só por mulheres.  Em conjunto com ela,  Marília Sodré, Lalá Evangelista, Marcinha Oliveira, Grace Profeta e Ray Mayara formam o projeto que tem como objetivo colocar no mundo o que essas mulheres são e acreditam por meio de canções. 

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Foto: Magali Moraes

Em 2022, a cantora Manu Gavassi foi convidada para ser capa do caderno "Ela", do Jornal O Globo. Apesar de ter falado sobre muitas temáticas que envolviam sua carreira na entrevista, a chamada da matéria dizia “Explante de silicone, transição capilar e novo timbre: Essa garota tá diferente.” Na época, Manu estava em turnê pelo Brasil e expressou a sua indignação com a forma que foi representada. Afinal, a cantora já participou de novelas, filmes e inúmeros projetos para o meio digital. Mesmo assim, a chamada foi feita a partir da evidência de seu corpo. 

 

O que aconteceu com Manu, não é um caso isolado. Esse tipo de cobertura é comum. Um exemplo disso aconteceu em 1974, quando Tuca, cantora e compositora brasileira, lançou o  disco “Drácula, I love you”.  Isabela Yu, que é jornalista e editora assistente da revista Noize, conta como os veículos nacionais retrataram Tuca: “O tipo de matéria que saía no Brasil era “cantora lésbica faz disco homengeando drácula.” Ou seja, quem escreveu não entendeu nada, não fez nem questão de entender. Isso é muito triste”, reflete a jornalista.

Títulos de matérias que não representam corretamente mulheres na música também fizeram parte da vida de Ju Moraes. Com 13 anos de carreira, a cantora já passou por muitas situações machistas relacionadas à cobertura da imprensa: “A minha carreira inteira sempre foi com manchetes deste nível, ‘a morena dos olhos verdes que encanta o público’, ‘Linda, leve e solta‘, ‘Ju Moraes casou’. Se você der um Google hoje no meu nome, a primeira coisa que vem embaixo é a namorada”, diz a artista.

O Sambaiana não conta apenas com mulheres no palco, mas também em funções como roadie e som. As artistas nesse projeto demonstram a importância de ter mulheres em cada uma das etapas da produção, por conta disso as encorajam a estudar as partes mais técnicas da construção de uma música. "A gente ainda tem muita dificuldade de encontrar mulheres na parte técnica, e é algo que hoje a Colaboraê tenta fazer, que é fomentar essas mulheres nessa área com cursos e formações", explica Ju Moraes.   

A carreira profissional da cantora só começou em 2010, mas seu apego pela arte vem desde de bem nova. A artista diz que com 10 anos de idade, em um musical de dia das mães na escola, encontrou no palco um sentimento forte de que a terra foi pro eixo. Hoje, Ju Moraes tem como princípio protagonizar mulheres a partir da produção musical, com arranjos e músicas autorais.

 

A canção do coletivo “Lá vem aquele boy” gera a sensação de brincadeira quando colocada para tocar, mas usa a melodia para falar de homens que tentam ensinar cantoras e instrumentistas sobre o que elas já sabem. A cantora revela que durante sua trajetória, cantou com muitos homens que não estudaram nada sobre música, mas que, mesmo assim, tinham mais reconhecimento quando entrevistados pela mídia.

Para a artista, existe um grande problema em matérias que não colocam em foco a carreira feminina. “É como se dissessem que eu devo me contentar com isso, me contentar que eu tenho esse espaço. Não é isso que eu quero, quero ser entrevistada para falar sobre o meu trabalho, sobre o talento e qualidade musical, que tantas mulheres apresentam, que na maioria das vezes é maior que o dos homens.”

 

Kamille Viola, jornalista e pesquisadora musical, também usa seu trabalho para tentar mudar a realidade da desigualdade de gênero relacionado a cantoras na esfera midiática. Ela conta que busca fazer uma reparação histórica na forma como retrata mulheres na música em suas matérias. "Quando a gente tem alguém com o olhar mais sensível pra questão da mulher, falando de uma cantora, essa cantora pode ser retratada de uma forma que ressalte os seus talentos, a trajetória, o esforço, que traga ela como protagonista da própria história, que valorize a arte dela", diz Kamille. 

 

Mesmo que pareça fácil discernir o machismo na cobertura midiática, existem matérias que apresentam de forma sutil, quase que imperceptível, a secundarização da carreira de artistas, e é por isso que, para a jornalista, é importante discutir quais palavras têm sido usadas para descrever o sucesso feminino nesse ambiente. “Não acontece apenas como o caso da Marília Mendonça, em que a imprensa falou do corpo dela após a sua morte, mas também quando falam de uma artista e dizem que ela é uma força da natureza. Existe uma construção de carreira da artista que é apagada", explica Kamille.

Letrux faz música profissionalmente desde 2008 e antes de ser conhecida pelo nome artístico, a cantora e compositora fez parte da banda Letuce. Hoje, já lançou três álbuns: 'Letrux em Noite de Climão', que ganhou o prêmio de melhor disco do ano pelo Prêmio Multishow, ''Letrux aos Prantos' e 'Letrux Como Mulher Girafa'. A cantora afirma que a melhor vingança tem sido ser feliz. "Para cada homem que foi machista, eu arrasei no palco, eu conquistei a plateia, e eles tiveram que ser testemunhas disso. Tomara que tenham repensando alguma coisa." 

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Foto: Julia Rodrigues

Assim como a questão da aparência, os relacionamentos atuais e passados também são colocados em foco em matérias jornalísticas sobre cantoras. Letícia Novaes, que tem o nome artístico Letrux, passou por críticas misóginas quando lançou o álbum ‘Em Noite de Climão’, que foi considerado o décimo melhor disco brasileiro de 2017 pela Rolling Stone Brasil.  Um crítico afirmou que a cantora teria escrito o álbum para um ex-namorado, sendo que o relacionamento já havia terminado há cinco anos. Letrux diz que foi constrangedor: “É como se nós mulheres, apenas orbitássemos em volta dos homens. E o Climão é um disco que tem uma música lésbica, tem música para um amor inventado, música pra hipnose, música que não tem a ver com romance. Enfim, ele não falou nada disso.” 

 

Na edição do dia 18 de outubro do evento "Papo de Música" no Rio de Janeiro, Letrux participou do quadro ao vivo “O que tem na minha sacola”, com a apresentadora Fabiane Ferreira, onde mostrava objetos importantes que fizeram parte da história dela. Ela falou da infância, de sua trajetória, releu agendas antigas com pensamentos e poesias do passado, pulando aqueles que cogitava serem muito vergonhosos. A cantora também tirou da sacola um nariz de palhaço, e explicou que, para surpresa de muitos, já tinha feito um curso de palhaço, que foi transformador. 

 

 

Tanto Kamille quanto Isabela também comentam de cantoras que são associadas a homens quando grandes mídias decidem falar sobre elas, as apresentando em matérias como ex-namoradas de alguém, ou citando a participação feita em uma música com um homem. Para Letrux, isso é resultado de uma imagem distorcida dos homens sobre as cantoras: “Infelizmente alguns homens ainda não entenderam o óbvio: que somos criadoras, criativas, não apenas estética, participamos de produção de disco, de arranjos, melodias, letras, então muitas vezes fazem umas perguntas constrangedoras que nada tem a ver com som”, diz a artista. 

 

De acordo com um estudo “Mulheres e liderança na mídia” divulgado pelo Instituto Reuters em 2023, apenas 13% dos cargos de chefia nas redações são ocupados por mulheres. Essa proporção pode influenciar na escolha de pautas que serão direcionadas às cantoras e nas edições que serão feitas na produção. Isabela Yu aponta que o problema já começa na faculdade, no momento em que ao estudar a parte cultural, jornalistas mulheres não são apresentadas com a mesma recorrência que homens: 

Infelizmente, nem todas as entrevistas costumam ser assim.

Perguntas feitas pela imprensa a artistas em festivais, shows e entrevistas exclusivas muitas vezes não estão focadas em suas trajetórias. Para Kamille, esse discurso da imprensa não é profundo quando se trata de mulheres.

Para Isabela, a problemática também está ligada a alguns mecanismos que os veículos utilizam para ganhar mais visualizações, mesmo que fujam do que seria um jornalismo ético e plural: ”O que eu acho que acaba viralizando muito negativo são as chamadas. Se você ler os textos, não necessariamente tem isso, mas justamente por causa dessa coisa da economia da atenção, acaba puxando pela polêmica. Eu não concordo."

 

Taíssa maia, pesquisadora, autora livro “O tropicalismo segundo Gal Costa” e idealizadora do projeto “Grandes mulheres da MPB”, explica que a forma como as redações funcionam não é por acaso: “Existe um interesse da grande mídia de permanecer com as estruturas sociais como elas são, e o patriarcado é uma dessas que sustenta a sociedade ainda. Novos modos de patriarcado. Eu acho que hoje, o capitalismo tem maneiras de lidar com a questão da mulher, com uma perversidade, com uma falsa visão de abertura.”

 

Essa falsa visão, que Taissa fala, está ligada à percepção incerta de que o espaço feminino está completamente conquistado já que as artistas têm visibilidade. Mas para a autora, não basta pensar sobre quem tem se falado nas mídias e sim o como essa representação é desenvolvida. Colocar mulheres em campos de poder, mas sem espaço para decisão e mudança, falar sobre mulheres em grandes veículos, mas apenas quando as pautas são sobre beleza e polêmicas, são exemplos dados por Taissa de como esses espaços ainda precisam permitir que novos discursos entrem em jogo. 

 

A pesquisadora explica que, para mudar esse cenário, é preciso muito mais do que colocar mulheres em altos cargos nas redações e identificar matérias, manchetes e leads que escancaram o machismo ao cobrir as cantoras brasileiras. Taissa percebeu, por exemplo, através da sua pesquisa, que Gal Costa era tida como uma artista que dava entrevistas ruins, mas também chegou à conclusão que as perguntas direcionadas a ela nunca saiam do óbvio.  

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