
De que maneira cantoras como Luciane Dom e Nina Oliveira encontraram novas formas de representação nas redes sociais em uma indústria imersa no digital
As redes que mandam
Quando o sonho de ser cantora bate à porta ainda na infância, a futura rotina que pode surgir na imaginação de meninas é a de compor, gravar, lançar e cantar. Entretanto, em um momento em que as redes sociais alimentam o desejo dos fãs, que se acostumaram a saber mais do seu artista preferido pelos meios digitais, cantoras atuais precisam usar dessa ferramenta para continuar fazendo sucesso no meio da música. A cantora Luciane Dom percebe que artistas femininas, que já têm dificuldade de fazer a mídia encarar suas carreiras como mais importante do que suas vidas pessoais, encontram uma ligação entre o sucesso e a dependência que as redes proporcionam.
A vontade de ser cantora, que agora é realidade, envolve também a gravação de vídeos, fotos, stories e conteúdos para o Instagram. No dia da entrevista para o projeto “Miragens femininas”, Luciane gravou cada momento, processo que já começou logo quando acordou e se estendeu até a noite, no seu show. O intuito era registrar como funcionam os bastidores de um dia de apresentação. Essa ação, na verdade, é atípica. A artista tenta ao máximo não tornar as redes sociais parte do que produz e sim um canal de comunicação para mostrar aquilo que já foi produzido.

As postagens de Luciane se concentram em mostrar a beleza das melodias que constituem seu canto. Prêmios, turnês e clipes. Na maioria das fotos a cantora aparece sorrindo. Em vídeos, aparece cantando em português, em outros em inglês ou espanhol, mas independente de qual língua a música esteja, sempre está acompanhada de um sentimento de realização por estar ali. A escolha dela foi de tentar desenvolver um público nas redes que não esperasse ter outros assuntos como pauta, que seu engajamento fosse somente pela sua vulnerabilidade de escancarar sentimentos nos seus álbuns. A cantora acredita que conseguiu: encontrou e educou as pessoas que a seguem a manterem os olhos atentos sobre seu trabalho.
Esse enquadramento, para a artista, é uma forma de limitar tanto os comentários que seriam postados na internet, quanto as matérias que poderiam ser feitas a partir da exposição de uma vida diária: "Tem tanta mulher pesquisando, vendo gênero de música, fazendo fusão de som que você nem imaginava. Mas as matérias às vezes falam "fulana estava na praia e está um pouco acima do peso." Tem tanta coisa que poderia ser ressaltada! O que essa fulana faz? O que que ela poderia estar produzindo, qual o próximo trabalho? As pessoas que estão publicando esse tipo de coisa nem se deram ao trabalho de entender quem é essa pessoa." completa Luciane.
Apesar da presença de cantoras no digital precisar ser tratada com cautela, tendo em vista aquelas que têm o objetivo de serem reconhecidas por seu trabalho e nada mais, a opção de poder fazer essa escolha já é um avanço. A possibilidade das próprias artistas terem a alternativa de decidir como serão vistas aos olhos de um público, de recortarem as partes da sua vida que querem mostrar, traz uma nova dimensão ao jogo da mídia.

"É um papel super importante de representar
mulheres reais, fortes e potentes,
mas que têm uma história real,
que contêm trajetórias, narrativas,
que se conectem com o público
com os ouvintes e tudo mais.
E isso porque o like por si só,
ele não se sustenta, não é?"
É o que confirma Herci Azevedo, Business Development da Warner Music Brasil. Quando reflete sobre a relação entre cantoras e redes sociais atualmente, explica que se as postagens forem feitas de forma pensada e estratégica, podem potencializar mulheres.
A profissional do mercado musical acredita que o digital é a maior vitrine para artistas na atualidade. E nela, a forma como as mulheres são observadas, muitas vezes, por seus públicos e pela imprensa, é apenas um reflexo do que já existe fora das telas. Mesmo que as redes, de certa forma, reverberem o machismo e outros problemas já existentes, também servem como um local para discutir questões femininas e tornar esse debate cada vez mais amplo.

Ainda que artistas se sintam saindo do seu lugar de trabalho ao produzir conteúdo no ambiente digital, e muitas vezes serem representadas de forma errada ao exporem suas vidas, a oportunidade de começar uma carreira pode vir do mesmo espaço que cria problemas de dependência para o sucesso. Foi o que aconteceu com Nina Oliveira. Nina é cantora, compositora e apresentadora. Nasceu em uma favela de Guarulhos, onde vive até hoje.

O mesmo quintal da casa que a artista mora é cenário de uma lembrança antiga. Seu pai conversava com amigos, dizendo que vida de artista é pra quem já nasce com dinheiro, quem nasce pobre, precisa procurar outra coisa. Nina ouviu, e aos 6 anos, essa fala foi crescendo dentro dela, como um ditado repetido várias e várias vezes. Se nasceu pobre, então esse sonho, segundo o contexto que vivia na época, não poderia ser perseguido.
Imagem: Canal Nina Oliveira
Como sempre gostou de estudar, esse se tornou seu foco para tentar encontrar outras possibilidades de carreira. Foi em uma escola técnica de São Paulo que o canto voltou a aflorar. Certo dia, um aluno do terceiro ano entrou em sua sala, avisando o início de um coral. Nina define esse momento como o primeiro start para perceber que a música estava junto dela, mesmo que não percebesse. Foi pelo incentivo de um amigo que já tinha ouvido a artista cantar que resolveu fazer o teste, e passou.
Esse ano que esteve no coral foi essencial. Com a saúde mental afundada, as canções que se misturavam com sua voz foram como uma salvação, diz que era como um band-aid colocado na rachadura de um tanque de 1000 litros de água. Porque, na época, não se falava sobre saúde mental, e ir a um psicólogo era inacessível. Tanto por questões financeiras, quanto pela ideia ao redor de que quem conversava com profissionais desse tipo era doido, e isso, Nina não queria ser.
Mesmo depois do ensino médio, a música continuou fazendo parte da vida da cantora. Começou a ter acesso à internet na adolescência e criou uma página com nome artístico no facebook, ligou a câmera, colocou no youtube e repostou nas redes sociais da época. Com 17 anos, Nina já estava estudando música há 1 ano e sabia tocar violão. Foi durante a pandemia que usou o celular de seu amigo para gravar um vídeo cantando “Eu te amo” do Chico Buarque e mandar para o Elefante Sessions, canal de experimentações audiovisuais.

"E aí o cara me respondeu falando assim "Nossa! Muito legal, Vamos gravar!". Aí gravei enfim e o vídeo viralizou, 1 milhão de visualizações em uma semana no Facebook. Tudo isso para dizer o que que eu penso... Eu me sinto pressionada a produzir conteúdo? Sim, me sinto pressionada a produzir conteúdo. No entanto, eu gosto e isso é uma grande contradição. Porque as redes sociais, elas são viciantes, então eu acho muito difícil encontrar o equilíbrio entre você ser uma pessoa que trabalha com internet e você ser uma pessoa que consome o que está na internet."
Imagem: Canal Sofar Latin America
Na indústria da música, os conteúdos não são feitos de forma aleatória. Existe um gerenciamento artístico que também analisa quais estratégias digitais podem ser usadas para alcançar mais ouvintes, levando em conta como cada público se comporta em cada rede social. Em muitos filmes, a produtora do artista é como uma grande vilã, que está cercando a cantora de expressar o que realmente quer. Victória Andrade é analista de negócios e gerenciamento artístico da Som Livre e esclarece que, nos bastidores, os planos são feitos baseados na individualidade. “A gente respeita muito a poesia da artista, sabe? Não vamos obrigar ninguém a estar nos meios ou ou fazer uma dancinha aí do TikTok. Sabemos que tem pessoas e pessoas”.

A cantora IZA concorda com a importância que Victória dá aos profissionais que gerenciam carreiras de cantoras quando o assunto é representação. Mesmo que agora as artistas possam postar conteúdos por si mesmas, é a partir de um pensamento amplo que, muitas vezes, conseguem usar o algoritmo para seus objetivos pessoais. Na quadra da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Iza está em pé, em frente aos olhos atentos de jovens com expectativas dos ensinamentos que vão ser passados sobre a indústria. Na palestra, disse que para que possa exercer plenamente sua função de artista, é necessário uma boa equipe de comunicação. Enxerga também o autoconhecimento como parte do processo, para criar conteúdos que estejam alinhados com o lugar feminino na música.

Da mesma forma que os algoritmos podem atrapalhar a divulgação de cantoras que não estão muito presentes na web, também ocorrem momentos totalmente inesperados, em que vídeos considerados comuns se tornam virais, mudando trajetórias musicais e condições financeiras. Victória descreve esse fenômeno como a magia da internet. O início de carreiras por meio de um vídeo no youtube, assim como aconteceu com Luciane Dom e Nina Oliveira, é uma parte boa das redes sociais: a oportunidade.

As cantoras argumentam que a representação que é feita por meios jornalísticos não estão no controle das artistas brasileiras. Entretanto, o que é esperado por essas mulheres nas redes sociais é resultado do que alimentaram. “O público que eu construí no online fica muito feliz, muito contente, quando eu posto música.”, diz Nina. A existência de um algoritmo que controla o sucesso à espera de postagens relacionadas à vida pessoais é real. Mas a capacidade de definir o que os fãs pedem ao ligar o celular é somente delas.

"Realmente é o público que está ali pela minha música, mas isso tem a ver com como eu construir. E a princípio, não foi uma construção consciente, estratégica e pensada. Hoje em dia é uma construção consciente, estratégica e bastante pensada. Mas nos primeiros anos de carreira, eu estava só colocando lá. Fazendo com a quantidade de informação que eu tinha. E felizmente, o que eu entregava para o meu público nos meus primeiros anos de carreira era música, não era lifestyle, não era minhas relações, não era a minha família. Era a minha música. E o que faz com que o público que permaneceu comigo espere isso de mim. Então acho que também é uma coisa para se colocar na conta. Se o seu público espera de você a sua vida pessoal, depois de você já ter construído várias coisas nas suas redes sociais, isso significa que você provavelmente entregou isso para ele. Então ele está ali por isso. Então tem que entender também como que faz para, ou mudar essa comunicação, e esse público vai acabar indo embora, mas vai chegar um público novo que vai querer o seu produto, a sua música, o seu jornalismo, a sua fotografia, enfim, o que você entrega. Ou como que você faz para manter esse tipo de comunicação ai da sua vida pessoal, mas tentar linkar isso mais com seu trabalho."